Dentre os inúmeros tipos de opressões sofridas pelo negro ao ingressar nos ambientes que historicamente foram ocupados privilegiadamente por pessoas brancas, a linguagem parece ocupar um papel de destaque. A necessidade de renunciar às formas expressivas que foram aprendidas ao longo de sua vida em seus meios sociais e que lhe servem de elementos fundamentais de identificação, figura como a amputação de uma parte elementar de si mesmo, que se mostra como inaceitável dentro daquilo que chamamos ambiente de trabalho, lugar imperiosamente fundamental para seu projeto de ascensão social.
O mundo corporativo é mediado por critérios de aceitação, formulados pelo pacto narcísico da branquitude, que dentre outras coisas, privilegia atributos culturais que foram negados à população negra como um todo, nos quais a linguagem se insere. A formação cultural do branco possibilita acessos específicos a espaços e lugares de referenciação que o permitem construir naturalmente em sua formação individual, um modo de se expressar muito bem alinhado ao que se espera dentro do ambiente corporativo. Essa particularidade foge às possibilidades contidas no processo de formação do negro (cria de periferia e das desigualdades sociais nela contidas), engendrando um tipo específico de privilégio que muitas vezes escapa à nossa sensibilidade.
Como diria Mano Brown, o mundo é diferente da ponte pra cá. Lugar de referenciação e formação indentitária, “da ponte pra cá” representa um conjunto de vivências e compartilhamentos culturais que denunciam uma construção histórica que criou à nossa revelia a cisão entre o “mundo deles” e o “nosso mundo”. No ambiente corporativo, o pacto da branquitude estabelece e simboliza de forma sutil que estamos pisando no “mundo deles” e que devemos abdicar das referências que carregamos do “nosso mundo” para sermos inseridos naquele espaço, que não obstante, é um espaço estruturalmente pautado por uma noção de competitividade.
Esse ambiente possui um tipo de linguagem específica. Importante ressaltar que, quando falamos de “linguagem”, não estamos nos referindo somente ao idioma. Um idioma pode assumir incontáveis formas de linguagens a depender da multiplicidade cultural que compartilha desse mesmo idioma. A linguagem do ambiente corporativo é a linguagem do branco. É a linguagem formal, considerada culta, rebuscada, imposta como universal e que se associa a códigos de cultura organizacional cuja aquisição é sutilmente suprimida a determinadas camadas da população, por um processo de restrição de acessos culturais, educacionais e de socialização. Essa linguagem se expressa também na forma de se apresentar, de se vestir, de se pentear, de gesticular e por aí vai.
Temos então, dois tipos de violências; a primeira, é a própria imposição de um tipo específico de linguagem que se assume e se coloca como universal, atribuindo inadequação a tudo aquilo que está constituído ou se desenvolve fora do seu seio. Em última análise, é a linguagem da colonização; a segunda está contida no processo excludente que torna o acesso a uma formação individual nesse tipo de linguagem exclusivo às camadas privilegiadas da sociedade, que partilham das prerrogativas sociais da branquitude.
Essa linguagem que se impõe como hegemônica, é naturalmente desenvolvida nos ambientes brancos de socialização, porém precisa ser aprendida de uma hora para a outra pelo negro ingressante no mundo corporativo, que nunca teve em seu núcleo familiar uma figura de referência que se mostrasse habituada a uma rotina de reuniões corporativas, emprego de termos inerentes ao mundo corporativo no dia-a-dia, uso de vestimentas adequadas ou um contato frequente com pessoas que expressam esse mundo em suas vivências e pudessem lhe transmitir esse tipo de linguagem de forma natural. Ao contrário, via de regra, o que se tem é o/a filho/a do porteiro ou motorista buscando se inserir em um mundo alienígena que rejeita sua forma natural de se expressar. Conforme Fanon nos alerta, um homem que possui a linguagem possui, em contrapartida, o mundo que essa linguagem expressa e que lhe é implícito. O negro se vê obrigado a assumir uma linguagem que expressa um mundo que lhe é absolutamente estranho e adverso. Mais do que isso, é forçado a tomar seu próprio mundo como estranho.
As diversas formas de linguagem e expressão cultural da população negra já lhe foram amputadas desde a diáspora africana, através dos inúmeros apagamentos históricos. Em nossa história recente, também é bastante evidente a forma com que as manifestações culturais de origem negra são constantemente recriminadas. O fato de que as formas de expressão desenvolvidas naturalmente em ambientes periféricos soem como ofensivas ou desrespeitosas nos ambientes corporativos, funciona como uma reatualização da violência contida nessa dinâmica histórica de silenciamento e apagamentos culturais.
Muitas vezes, formas de expressão próprias da linguagem periférica são empregadas no ambiente corporativo por pessoas brancas (frequentemente socializadas fora do contexto em que esse tipo de linguagem se desenvolve), porém esse emprego não parece soar de forma tão negativa como soa no caso de pessoas negras, podendo ser considerando inclusive como algo “descolado”. Infelizmente a apropriação cultural ainda possui um passaporte de aceitação social que as manifestações naturais e espontâneas dos grupos minonorizados ainda nem sonham em obter.
Não sei se sou demasiadamente otimista ou utópico, mas sonho com um mundo onde uma pessoa negra possa soltar expressões do seu dialeto periférico em uma importante reunião de negócios sem se preocupar em ser julgada negativamente por isso e sem prejuízo da sua capacidade de se comunicar de maneira efetiva, funcional, coerente e elegante. Um mundo em que essa linguagem atualmente tida como “rebuscada” e aceita nesses ambientes, possa ser acessível ao invés de impositiva e se combinar harmoniosamente com as demais formas de linguagens existentes, possibilitadas pela nossa diversidade etnocultural. Um mundo onde essa diversidade seja genuinamente celebrada.




